Momento: Tênis ou Frescobol

“É isto que amamos nos outros: o lugar vazio que eles abrem para que ali floresçam as nossas fantasias”

Rubem Alves

A Phoenix chegou com um sorriso radiante, irresistível. Trouxe junto um perfume inebriante de uma alma suave e doce.

O encantamento foi imediato. Meu olhar encontrou seu olhar. Nossas conversas se vestiam com a qualidade da emoção, da inteligência e das experiências vivenciadas. Nos abrimos em diálogos de confiança e esperança. Inacreditável! Tão pouco tempo e tanta abertura.

Tempo! Tempo! Apenas 10 dias! Tempo suficiente para pintar os sonhos com a magia do possível e iluminar os caminhos com as luzes da realidade.

Tempo! Tempo! Apenas 10 dias! Tempo suficiente para o entrelaçar de suas almas, entre conversas magistralmente inteligentes e libertadoras, tendo como testemunha o burburinho da cidade em festa.

Tempo! Tempo! Apenas 10 dias! Tempo suficiente para o enredar de seus corpos, entre beijos e olhares desejosos de prazer, tendo como testemunhas o rock de garagem, o carro, a escada, a varanda, a praça, o pontilhão, a estação de trem, a estrada… a “cidade em seus recantos” e o amanhecer em êxtase.

Tempo! Tempo! Apenas 10 dias! Tempo suficiente para o reencontro de almas sedentas em redescobrir a arte de amar profundamente.

No anoitecer te conheci
No sorriso me perdi
Na magia do beijar
Quando percebi
Já estava a te amar

Quanta loucura…
A cada momento buscava
Em tua alma navegar
Em teu corpo caminhar
Na ânsia de amar

O beijo, que doce magia
O corpo estremecia
Numa noite sem luar
Com música a esvoaçar
No carro começar
Na varanda debruçar
Na praça esbravejar
Na estrada extasiar

No amanhecer te reconheci
No olhar me perdi
Na magia do beijar
Quando percebi
Já estava a te amar

No momento vivi
O amor que jamais pensei existir
De te reencontrar jamais vou desistir
Pois sei que sempre vou te amar
E juntos, vamos relembrar
No vazio elementar
Floresceu como delicada flor
O perfume do amor

Tempo! Tempo! Senhor da metamorfose, impulsionando o momento e todos transformando. Novos pensamentos, novos ideais, novos sonhos e uma vontade de amar interminável. As asas despontaram (Nascia o Dragon!) rompendo as grades da gaiola… As chamas reacenderam (Renascia a Phoenix!) explodindo a âncora do passado… ele voo… ela voo… e percorrendo os recantos da alma, buscavam encontrar as veias que conduziam ao coração e, assim, desatar as correntes do medo, libertando todos os sentimentos que conduzem ao amor, na ânsia de viver todo o desejo de amar e sonhar renascendo num enlaçar de energia para uma partida de frescobol. 🐉💙🔥


Relacionamento, Tênis e Frescobol

Depois de muito meditar sobre o assunto, conclui que os relacionamentos são de dois tipos: há os relacionamentos tipo Tênis e os relacionamentos tipo frescobol.

Os relacionamentos tipo Tênis são uma fonte de raiva, ressentimento e terminam sempre mal. Os relacionamentos tipo frescobol são uma fonte de alegria e tem chance de ter vida longa.

Explico-me:

Para começar uma afirmação de Nietzche, com a qual concordo plenamente. Dizia ele: “Ao pensar sobre a Possibilidade de um casamento, cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: Você crê que seria capaz de conversar com esta pessoa até sua velhice? Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo, São aquelas construídas sobre a arte de conversar. “

Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E amantes inexperientes, agem contrariamente ao que pensam, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: “Eu te amo …”

Barthes advertia: “Passada a primeira confissão, ‘eu te amo’ não quer dizer mais nada. É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética.

Recordo a sabedoria de Adélia Prado: “Erótica é a alma.”

O Tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E sua derrota se revela no erro seu, o outro foi Incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem uma noção exata do ponto fraco do seu adversário. E é justamente para aí que ele vai dirigir em sua cortada – palavra muito sugestiva — que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar.

O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente em um momento que o jogo não pode continuar mais, porque o adversário foi colocado fora do jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.

O frescobol se parece muito com o tênis, dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro POSSA, então, pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser um derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como uma ejaculação precoce; um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, vir e ir … E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância; começa-se tudo de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos …

A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob uma forma de palavras …

Conversar é ficar batendo sonho prá cá, sonho prá lá …. Mas há casais que jogam como se jogassem tênis.

Ficam a espera do momento certo para uma cortada. Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão … O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.

Já no Frescobol é diferente, o sonho do outro é um brinquedo que DEVE ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que falar, ao outro, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem – cresce o amor … Ninguém ganha, para que ganhem os dois.

E se deseja então, que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim.

Rubem Alves


Cláudio Cordeiro